Não espere pela prestação em atraso
Se percebe que pode falhar uma prestação do crédito habitação, contacte o banco antes da data de pagamento. É mais fácil negociar quando ainda está em risco de incumprimento do que depois de acumular atrasos, juros e cartas formais.
Explique a situação de forma concreta: perda de rendimento, doença, desemprego, divórcio, subida da prestação, aumento de despesas ou outro motivo relevante. O objetivo não é justificar tudo verbalmente, é abrir um processo de análise com informação suficiente.
O Banco de Portugal explica que o cliente deve comunicar dificuldades no pagamento dos empréstimos para que a instituição possa promover medidas que evitem o incumprimento: direitos e deveres na contratação de crédito.
Faça uma fotografia real do orçamento
Antes de negociar, prepare uma visão clara do orçamento mensal. Liste rendimentos líquidos, prestações de crédito, seguros, condomínio, energia, água, telecomunicações, alimentação, transportes, saúde, educação e outras despesas obrigatórias.
Depois calcule quanto consegue pagar de forma sustentável. Não proponha uma prestação que só cabe se tudo correr bem. Um acordo que falha ao fim de dois meses pode agravar a situação e reduzir a margem de negociação.
Se existem outros créditos, cartões ou descobertos, consulte o mapa de responsabilidades de crédito no Banco de Portugal. A Central de Responsabilidades de Crédito mostra os contratos registados e pode ajudar a perceber o peso total das dívidas: responsabilidades de crédito.
Organize documentos antes de falar com o banco
O banco pode pedir documentos para avaliar a sua capacidade financeira. Tenha preparados recibos de vencimento, declaração de IRS, comprovativos de prestações sociais, extratos, comprovativos de despesas relevantes e informação sobre outros créditos.
No âmbito dos mecanismos de prevenção de incumprimento, o cliente deve colaborar e entregar a informação solicitada. Segundo o Banco de Portugal, quando a instituição pede elementos adicionais no PARI, o cliente deve disponibilizá-los no prazo de 10 dias.
Enviar documentação incompleta ou ignorar pedidos do banco atrasa a análise. Também dificulta a apresentação de propostas ajustadas ao problema real.
Perceba o PARI antes de entrar em incumprimento
O PARI é o plano de ação para o risco de incumprimento. Aplica-se quando o banco identifica indícios de risco ou quando o cliente comunica que pode deixar de conseguir pagar.
Nesse contexto, a instituição deve avaliar a capacidade financeira do cliente e, quando for viável, apresentar soluções adequadas. O Banco de Portugal refere exemplos como renegociação do contrato, alargamento do prazo, período de carência, diferimento de capital, redução temporária da taxa de juro ou consolidação de créditos: prevenção do incumprimento.
Estas soluções não são todas boas em qualquer caso. Alargar prazo pode baixar a prestação, mas aumentar o custo total. Uma carência pode dar alívio imediato, mas adiar capital. O ponto essencial é comparar a prestação nova, o custo total e a probabilidade de conseguir cumprir.
Se já falhou prestações, não ignore o PERSI
Quando já existe incumprimento, pode aplicar-se o PERSI, procedimento extrajudicial de regularização de situações de incumprimento. Este procedimento serve para avaliar a situação e procurar uma solução antes de avançar para medidas mais graves.
Durante o PERSI, a instituição está impedida de resolver o contrato por incumprimento. Isto não significa que a dívida desaparece ou que pode deixar de colaborar. Significa que existe um enquadramento para tentar regularizar a situação.
Leia todas as cartas e mensagens do banco. Confirme prazos, documentos pedidos, valores em atraso e propostas apresentadas. Guarde comprovativos de envio e peça respostas por escrito sempre que possível.
Que soluções podem ser negociadas
As soluções dependem da capacidade financeira, do valor em dívida, do contrato, das garantias e da política do banco. Ainda assim, é comum discutir uma ou várias destas opções:
- pagamento faseado de prestações em atraso;
- alargamento do prazo do empréstimo;
- período temporário de carência de capital;
- diferimento de parte do capital;
- redução temporária da taxa ou revisão do spread;
- consolidação de outros créditos, se reduzir risco sem esconder o problema;
- transferência do crédito para outra instituição, quando ainda é viável e o perfil permite aprovação.
Peça sempre simulações por escrito. Compare prestação, prazo, TAEG, MTIC, seguros, comissões e custo total. Uma solução que baixa a mensalidade pode ser útil, mas não deve transformar a dívida numa obrigação impossível de terminar.
Custos de mora e comissões
Quando há prestações em atraso, podem existir juros de mora e comissão de recuperação de valores em dívida. O Banco de Portugal indica que, em situações de mora, as instituições podem aplicar uma sobretaxa anual máxima de 3% sobre a taxa remuneratória e cobrar uma comissão única por prestação vencida e não paga, dentro dos limites aplicáveis.
Além disso, podem ser repercutidas despesas suportadas perante terceiros, desde que exista justificação documental. Por isso, quanto mais tempo o atraso se prolongar, maior tende a ser o custo de regularização.
Não aceite valores sem perceber a composição da dívida. Peça discriminação de capital, juros, juros de mora, comissões, seguros e outras despesas.
O banco pode resolver o contrato logo por uma prestação?
Segundo o Banco de Portugal, no crédito à habitação a instituição só pode resolver o contrato se estiverem verificadas duas condições: falta de pagamento de três prestações sucessivas e concessão de um prazo suplementar mínimo de 30 dias para pagar, com advertência expressa das consequências.
Além disso, a instituição não pode resolver o contrato durante o PERSI. Ainda assim, uma prestação em atraso deve ser tratada com urgência. Esperar por três prestações aumenta custos, pressão e risco de perda de alternativas.
Procure apoio gratuito se não conseguir negociar sozinho
Se não percebe a proposta do banco ou sente que está a ser pressionado, procure apoio antes de assinar. A Rede de Apoio ao Cliente Bancário, conhecida como RACE, presta informação, aconselhamento e acompanhamento a clientes em risco de incumprimento ou com prestações em atraso. O acesso é gratuito: Rede de Apoio ao Cliente Bancário.
Também pode apresentar reclamação se entender que a instituição não cumpriu os seus deveres de informação ou acompanhamento. Mas a reclamação não substitui a gestão do prazo de pagamento. Continue a responder ao banco e a guardar documentação.
Evite decisões que agravam o problema
Em incumprimento, a pressa pode sair cara. Evite pedir crédito caro para tapar uma prestação sem resolver o desequilíbrio mensal. Evite usar cartão de crédito ou descoberto bancário como solução permanente. Evite também promessas de intermediários que garantem aprovação ou pedem pagamentos adiantados.
Se a casa já não é sustentável no orçamento, pode ser necessário ponderar soluções difíceis, incluindo venda voluntária antes de uma situação judicial. Esta decisão deve ser avaliada com cuidado, contas claras e, quando necessário, aconselhamento especializado.
Checklist imediata
- Contactei o banco antes de acumular mais atrasos?
- Tenho orçamento mensal atualizado?
- Consultei o mapa de responsabilidades de crédito?
- Entreguei os documentos pedidos dentro do prazo?
- Pedi propostas por escrito?
- Comparei prestação, prazo, TAEG, MTIC e custo total?
- Sei se estou em PARI ou PERSI?
- Guardei cartas, emails e comprovativos?
- Pedi apoio gratuito à RACE se precisei de ajuda?
Conclusão
Incumprimento no crédito habitação deve ser tratado cedo, por escrito e com contas realistas. O primeiro objetivo é evitar que uma dificuldade temporária se transforme numa dívida maior e numa negociação mais limitada.
Contacte o banco, organize documentos, peça propostas claras e compare o impacto no orçamento e no custo total. Se já há prestações em atraso, leve o PERSI a sério e procure apoio gratuito se não conseguir avaliar a proposta sozinho.
Opinião dos leitores
Avaliações e comentários
Para comentar ou avaliar, é necessário iniciar sessão por SSO. O email não é publicado.