Assinou um crédito pessoal e mudou de ideias? Nos contratos abrangidos pelo regime do crédito aos consumidores, existe um direito de livre revogação que permite desistir dentro do prazo legal, sem apresentar uma justificação.
Para o exercer, é essencial comunicar a decisão corretamente e preparar a devolução do dinheiro. Cancelar um débito direto, telefonar ao vendedor ou deixar de usar o montante recebido não resolve, por si só, o contrato.
Neste guia, explicamos os prazos, os valores a devolver, os comprovativos a guardar e os cuidados com compras e seguros associados. Incluímos também um modelo de comunicação para adaptar ao seu processo.
Informação consultada em 23 de outubro de 2026. O artigo trata do regime de livre revogação previsto para crédito aos consumidores no Decreto-Lei n.º 133/2009. Confirme o enquadramento do seu contrato; crédito habitação, financiamento profissional e contratos sujeitos a regras especiais exigem análise própria. Os exemplos são ilustrativos.
Posso desistir de um crédito pessoal depois de assinar?
Sim, quando o contrato está abrangido por este regime e o direito é exercido dentro do prazo aplicável. O Banco de Portugal explica que o consumidor pode desistir sem justificar a decisão. Banco de Portugal — Contratação de crédito aos consumidores.
O motivo pode ser uma alteração de planos, uma despesa que deixou de ser necessária ou a conclusão de que a prestação pesa demasiado no orçamento. Organize o procedimento independentemente do motivo.
Comece por identificar a instituição que concedeu o crédito, o número do contrato, a data da celebração e quando recebeu o exemplar contratual e as informações relevantes.
Se apenas fez uma simulação ou apresentou um pedido ainda sem contrato celebrado, confirme o estado do processo e peça que a instituição registe a intenção de não prosseguir. É importante perceber o que efetivamente foi formalizado.
Quais são os dois prazos que não deve confundir?
O procedimento tem dois momentos distintos:
| Momento | Prazo e finalidade |
|---|---|
| Comunicação da revogação | 14 dias de calendário para exercer o direito, a partir do início legalmente aplicável |
| Devolução após a comunicação | Sem atrasos indevidos e, no máximo, 30 dias após a expedição da comunicação, para pagar o capital e os juros devidos |
O segundo prazo não prolonga o primeiro. Enviar a declaração depois de ultrapassado o prazo de revogação não fica automaticamente regularizado por devolver o dinheiro nos dias seguintes. Diário da República — Artigo 17.º do regime do crédito aos consumidores.
Registe duas datas no calendário: a data-limite para expedir a comunicação e a data-limite para a restituição. Planeie agir antes de ambas.
Quando começam a contar os 14 dias?
O artigo 17.º estabelece como referência a data da celebração do contrato. Se receber mais tarde o exemplar do contrato e as informações previstas no artigo 12.º, é essa receção posterior que releva para o início do prazo. Diário da República — Livre revogação.
Guarde o email de entrega dos documentos, o comprovativo de disponibilização e os ficheiros recebidos. Se tiver dúvidas sobre quando recebeu a documentação completa, peça esclarecimento e procure apoio jurídico, sem adiar uma comunicação que ainda possa enviar em tempo.
Exemplo de contagem
Imagine que celebra o contrato e recebe toda a documentação relevante em 23 de outubro de 2026. Aplicando a regra de não contar o dia do evento, o primeiro dia será 24 de outubro e o 14.º será 6 de novembro de 2026.
O artigo 279.º do Código Civil contém regras de contagem, incluindo a exclusão do dia do evento e o tratamento do termo em domingo ou feriado. Diário da República — Código Civil, artigo 279.º.
O exemplo pressupõe entrega completa na data indicada e não substitui a verificação do caso concreto. Não conte apenas dias úteis nem deixe o envio dependente do horário de um balcão no último dia.
Como comunicar a desistência
A declaração deve ser expedida em papel ou noutro suporte duradouro acessível à instituição, observando as indicações contratuais para exercer o direito. Diário da República — Artigo 17.º, comunicação da revogação.
Consulte a cláusula de livre revogação para identificar o destinatário e o canal. Um email para o endereço indicado ou uma carta com prova de envio podem ajudar a documentar o exercício do direito, conforme o procedimento aplicável.
A comunicação deve identificar:
- O titular ou titulares do contrato.
- O número ou referência do crédito.
- A decisão expressa de exercer o direito de livre revogação.
- A data da comunicação.
- O contacto para receber instruções e esclarecimentos.
Guarde uma cópia integral do que enviou, incluindo anexos, destinatário e prova de expedição. Um pedido vago de informação sobre “como cancelar” pode não documentar uma decisão clara de revogar.
Pode telefonar para esclarecer o procedimento, mas preserve também a comunicação em suporte duradouro. Se houver vários titulares, confirme as formalidades de intervenção de todos.
Modelo de comunicação de livre revogação
Adapte os campos ao seu caso e utilize o destinatário contratualmente indicado. O texto é um apoio de redação, sem substituir requisitos específicos do processo.
Assunto: Exercício do direito de livre revogação — contrato de crédito [número].
Exmos. Senhores,
Eu, [nome completo], titular do contrato de crédito [número ou referência], celebrado em [data], venho exercer o direito de livre revogação previsto no artigo 17.º do Decreto-Lei n.º 133/2009, dentro do prazo aplicável.
Solicito confirmação da receção desta comunicação e a indicação do procedimento para restituição do capital e dos juros devidos, com discriminação dos valores, da taxa nominal aplicada e das datas consideradas no cálculo.
Solicito igualmente a identificação e fundamentação de eventuais despesas não reembolsáveis pagas a entidades da Administração Pública, bem como informação sobre o tratamento de serviços acessórios conexos e de cobranças entretanto programadas.
Após o pagamento dos valores devidos, solicito confirmação escrita da regularização do processo.
[Nome, data e contacto. Assinatura, quando aplicável ao meio utilizado.]
Envie apenas os elementos necessários à identificação do processo por um canal oficial. Não inclua palavras-passe, códigos de autenticação ou dados completos de cartões.
E se o dinheiro já estiver na minha conta?
O recebimento do dinheiro exige que prepare a restituição, nos termos aplicáveis. O Portal do Cliente Bancário explica que, depois da revogação, há que devolver o capital e pagar os juros relativos ao período de utilização. Banco de Portugal — Perguntas frequentes sobre livre revogação.
Separe o montante e evite utilizá-lo enquanto organiza o pagamento. Peça instruções seguras: beneficiário, referência, conta e data considerada para o apuramento.
Confirme as instruções por um contacto oficial conhecido, sobretudo se receber uma alteração de IBAN por mensagem. Guarde o comprovativo da transferência e peça confirmação da sua imputação ao contrato certo.
Não espere passivamente pela resposta se o prazo de restituição estiver a aproximar-se. Reitere o pedido, documente os contactos e procure apoio para cumprir a obrigação atempadamente.
Quanto tenho de devolver?
O apuramento parte do capital utilizado e dos juros vencidos até à restituição, calculados pela taxa nominal contratada. O regime admite ainda despesas não reembolsáveis pagas pelo credor a entidades da Administração Pública. Banco de Portugal — Valores devidos na livre revogação.
Peça uma discriminação que permita reconciliar:
- Capital disponibilizado e utilizado.
- Juros e período considerado.
- Pagamentos ou cobranças já realizados.
- Acertos e eventuais despesas públicas identificadas.
- Valor ainda necessário para regularizar o processo.
Se recebeu um valor líquido inferior ao capital indicado no contrato, peça que a instituição explique a diferença e o tratamento de cada parcela. Não transfira simplesmente o saldo que ficou na conta sem confirmar os acertos.
No exercício válido deste direito, o apuramento do artigo 17.º não prevê uma comissão de amortização ou uma penalização por desistir. Se lhe apresentarem uma taxa de cancelamento, peça a sua fundamentação e discriminação. A amortização antecipada é um procedimento diferente.
Exemplo de juros até à devolução
Considere 6.000 euros de capital, uma TAN hipotética de 9% e restituição após 12 dias de utilização.
Para este exercício, usamos juros simples, base anual de 365 dias, um único desembolso e ausência de pagamentos intermédios:
Juros = capital × TAN × dias ÷ 365.
Logo, 6.000 × 0,09 × 12 ÷ 365 = 17,75 euros, aproximadamente.
O subtotal de capital e juros seria de 6.017,75 euros. Não inclui eventuais despesas públicas não reembolsáveis ou outros acertos a identificar. A base de contagem e o valor diário devem ser confirmados no contrato e no apuramento da instituição.
| Dias de utilização hipotéticos | Juros estimados | Subtotal de capital e juros |
|---|---|---|
| 5 dias | 7,40 € | 6.007,40 € |
| 12 dias | 17,75 € | 6.017,75 € |
| 25 dias | 36,99 € | 6.036,99 € |
Os cenários mostram o efeito do tempo de utilização. O prazo máximo de 30 dias para restituir é contado após o envio da declaração; não significa que os juros sejam sempre calculados sobre apenas 30 dias desde o recebimento do capital.
A TAN de 9% é uma hipótese de cálculo, sem representar uma oferta comercial. Para distinguir taxa nominal e custo total, consulte o guia sobre TAEG, TAN e MTIC.
A devolução tem de esperar pelos 30 dias?
Não. O prazo é um limite para cumprimento, e a restituição deve ocorrer sem atrasos indevidos. A regra encontra-se também na diretiva europeia relativa ao crédito aos consumidores. EUR-Lex — Diretiva 2008/48/CE, artigo 14.º.
Planeie devolver assim que tiver as instruções e o valor apurado. O pagamento mais cedo reduz o período de utilização considerado no exemplo de juros.
Numa situação ilustrativa, se expedir a declaração em 27 de outubro de 2026, 30 dias depois corresponde a 26 de novembro de 2026. Esta referência não substitui a obrigação de atuar sem atraso indevido.
Confirme também quando o dinheiro ficará disponível para a instituição. Uma ordem de transferência pendente não deve ser tratada como confirmação de que a restituição já foi recebida e registada.
E se já tiver gasto o dinheiro?
A desistência não apaga o capital que foi utilizado. Faça uma conta imediata ao que consegue restituir e ao prazo disponível, incluindo juros e acertos.
Se pagou uma compra com o dinheiro, verifique separadamente se pode resolver ou desfazer essa compra e quando receberia a devolução. Não conte com um reembolso do vendedor ainda não confirmado para cumprir uma obrigação com data próxima.
Se não conseguir reunir o valor, contacte a instituição e procure apoio jurídico ou de defesa do consumidor rapidamente. Não presuma que comunicar dificuldades suspende o prazo ou que o empréstimo retoma automaticamente o plano inicial.
Evite contrair outro crédito de forma apressada apenas para cobrir a devolução, sem comparar os encargos e o impacto no orçamento.
Revogação e amortização antecipada são a mesma coisa?
São direitos diferentes. A livre revogação permite desistir dentro da janela legal após a contratação. O reembolso antecipado permite pagar capital antes do plano inicialmente previsto, com o procedimento e os encargos próprios. O Banco de Portugal distingue ambos no seu guia de direitos e deveres. Banco de Portugal — Crédito aos consumidores: direitos e deveres.
Se o prazo de revogação já passou, peça o valor e as condições para liquidar antecipadamente. Para aprofundar essa alternativa, consulte o guia sobre amortizar crédito pessoal.
Peça que a instituição identifique qual o procedimento que está a registar, para evitar processar uma comunicação de revogação como se fosse apenas um pedido de simulação de amortização.
E se o crédito financiou uma compra numa loja?
Um empréstimo pessoal com utilização livre e um financiamento ligado a um bem específico podem ter enquadramentos diferentes.
O Banco de Portugal explica que pode existir crédito coligado quando o financiamento serve exclusivamente uma compra ou serviço e ambos constituem uma unidade económica. A revogação ou invalidade da compra pode repercutir-se no crédito coligado. Banco de Portugal — Tipos de crédito e contratos coligados.
Se a financeira pagou diretamente ao vendedor, identifique por escrito quem tem o dinheiro, quem deve restituir cada valor e qual o destino do bem. Informe as duas entidades e guarde as respostas.
Não conclua que desistir do financiamento permite conservar gratuitamente o produto, ou que entregar o produto na loja prova que a financeira já recebeu o reembolso.
Se houver uma relação coligada ou desacordo sobre os efeitos na compra, peça a análise do conjunto dos contratos. As consequências dependem da operação concreta e do fundamento usado para a cessação.
O que acontece ao seguro e aos serviços acessórios?
O regime prevê efeitos sobre serviços acessórios conexos prestados pelo credor ou por terceiro quando o crédito é revogado. Diário da República — Artigo 18.º, n.º 5.
Identifique todos os serviços associados e peça confirmação do tratamento da cobertura, dos prémios e de eventuais valores já debitados ou financiados.
Não presuma que qualquer conta bancária ou serviço independente termina da mesma forma. Confirme quais são efetivamente acessórios ao crédito e quais têm contrato autónomo a tratar separadamente.
Guarde a confirmação da seguradora ou prestador quando necessária para esclarecer o fecho do processo e os acertos.
Posso cancelar imediatamente o débito direto?
Cancelar uma autorização de débito não é uma declaração de revogação nem devolve o capital. Antes de alterar cobranças, peça informação sobre os movimentos já programados e os valores que serão considerados na regularização.
Se houver um débito entretanto efetuado, peça que entre na reconciliação. Não pague novamente a mesma parcela sem verificar o seu tratamento.
Depois de regularizar tudo, confirme que não há cobranças futuras associadas ao contrato revogado e que recebeu um documento ou mensagem que permita demonstrar o encerramento do processo.
O que fazer se a instituição não responder ou discordar?
Organize uma cronologia com a assinatura, a entrega documental, a disponibilização do capital, o envio da declaração, os contactos e os pagamentos. Anexe cópias legíveis dos comprovativos.
Peça uma resposta fundamentada sobre o ponto em desacordo: enquadramento do contrato, prazo, meio de comunicação ou cálculo de valores.
Pode utilizar os canais formais de reclamação, incluindo o Livro de Reclamações Eletrónico. O Banco de Portugal explica o encaminhamento dessas reclamações para a entidade e para o supervisor. Banco de Portugal — Livro de Reclamações Eletrónico.
Uma reclamação não deve ser tratada como substituto da comunicação de revogação ou como suspensão automática de prazos. Se o conflito exigir uma apreciação individual dos seus direitos, procure apoio jurídico adequado.
Checklist para desistir com o processo documentado
- Confirmei que o contrato está abrangido pelo regime apresentado.
- Identifiquei a data de celebração e de receção da documentação.
- Verifiquei o prazo para expedir a declaração.
- Enviei uma decisão expressa pelo canal adequado e guardei prova.
- Pedi o capital, os juros e os acertos discriminados para uma data concreta.
- Preparei a devolução sem esperar pelo último dia.
- Confirmei compras coligadas e serviços acessórios, quando existam.
- Reconciliei pagamentos ou débitos entretanto realizados.
- Guardei comprovativos da restituição e da regularização final.
O essencial é tratar a comunicação e a devolução como duas etapas do mesmo processo. Ter a decisão registada, os valores reconciliados e os pagamentos comprovados ajuda a evitar dúvidas sobre o que ficou por cumprir.
Conteúdo informativo. Confirme os prazos, o enquadramento e os valores no contrato e junto da instituição. Este guia não substitui aconselhamento jurídico para um processo concreto.
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